Continuando o estudo sobre a segurança alimentar, trago hoje uma análise sobre um caso de cólera que aconteceu na cidade de Paranaguá (PR) no ano de 1999. Primeiramente, vamos explicar sobre as características dessa doença e o seu histórico no território brasileiro. A cólera é uma doença causada pelo vibrião colérico (Vibrio cholerae), uma bactéria em forma de vírgula ou vibrião que se multiplica rapidamente no intestino humano produzindo uma potente toxina que provoca diarreia intensa. Ela afeta apenas os seres humanos e a sua transmissão é diretamente dos dejetos fecais de doentes por ingestão oral, principalmente em água e alimentos contaminados.
No decorrer da sétima pandemia universal, iniciada em 1961, a cólera acabou por atingir o Brasil em abril de 1991, cerca de três meses após invadir a América do Sul através do Peru. Disseminando-se rapidamente pelas Regiões Norte e Nordeste, a doença parece ter se estabelecido de maneira permanente em extensas áreas do território brasileiro, alternando períodos de transmissão endêmica e epidemias de dimensões variáveis. De certa maneira, a cólera passou a constituir apenas mais uma doença associada às condições precárias de higiene e saneamento, característica de regiões tão pobres e desassistidas, que careciam até mesmo de abastecimento de água de boa qualidade. Por um raciocínio inverso, passou-se a aceitar que as áreas mais desenvolvidas do País estariam a salvo da doença, uma vez que as suas condições sanitárias especialmente relacionadas à disponibilidade ampla de água potável representariam uma barreira eficaz à disseminação do vibrião colérico.
No entanto, esse raciocínio foi subitamente abalado no final de março de 1999, quando uma epidemia de grandes proporções foi identificada na cidade portuária de Paranaguá, escoadouro de parte considerável da produção de uma unidade federativa tida como das mais ricas do Brasil. Em pouco tempo, o número de casos elevou-se de maneira rápida, com dezenas de novos diagnósticos sendo realizados diariamente no início de abril.No total, foram registrados 466 ocorrências e três óbitos. Mas o que causou uma manifestação tão rápida da doença?
Dentre os vários motivos estudados, as principais explicações para o aparecimento da doença na região apontam para o fluxo de caminhoneiros envolvidos no transporte da safra de soja, provenientes de áreas diversas do País, como o mecanismo responsável pela introdução do agente causal da cólera na cidade. Mas, existem outras possíveis explicações como uma eventual contaminação da região portuária por material jogado na baía pelos navios provenientes de áreas endêmicas e uma contaminação intensa pelo vibrião colérico do zooplâncton e de mariscos, de modo particular um molusco bivalve (Modiolus brasiliensis), popularmente conhecido como bacucu, o qual é bastante consumido pela população vizinha às áreas de mangue, praticamente sem qualquer cozimento.
Sendo assim, a epidemia de cólera na região pôde ser associada à um perigo biológico que contaminou os alimentos da população. No entanto, pode-se fazer uma análise ainda mais profunda do ocorrido levando-se em conta as condições sociais da região. Apesar de a região sul ser conhecida como uma das mais ricas do Brasil, não convivem no Paraná apenas pessoas de condição social alta. Assim como em qualquer região do país, existem na cidade de Paranaguá uma presença direta de desigualdades sociais fortes: a uma curta distância do terceiro porto do país em movimento de cargas - Porto de Paranaguá - onde bilhões de dólares são movimentados anualmente em produtos de exportação, milhares de excluídos socialmente ocupam uma área invadida, praticamente dentro do mangue, sem qualquer serviço minimamente aceitável de escoamento e tratamento de esgoto. Nesse cenário, em tudo propício ao aparecimento de doenças de transmissão entérica, ocorre, nos períodos de safra, um intenso e rudimentar comércio de alimentos, frequentado por milhares de caminhoneiros, que permanecem às vezes por longos períodos no aguardo do descarregamento dos seus veículos.
Desse modo, devemos refletir sobre as condições da segurança alimentar no nosso país: será que realmente as regiões mais ricas estão protegidas contra o proliferação de doenças, como a cólera, que podem ser evitadas com medidas de saneamento e de higiene? Existe uma barreira tão forte que separe a população rica - protegida das doenças - da população pobre - vulnerável às doenças? A segurança alimentar da população brasileira está realmente protegida uma vez que o Brasil avança cada vez mais economicamente e tecnologicamente?
Com essas reflexões, chego ao fim da postagem. Dúvidas, comentário e opiniões acerca dessas reflexões podem ser feitas nos comentários.
Fontes: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X1999000200030&script=sci_arttext
http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3lera
A cólera está relacionada com a pobreza de forma potencial. As condições de vida das pessoas, quando muito precárias, tornam-nas mais vulneráveis e predispostas a contrair a doença. Entretanto, como provou a postagem, a barreira entre riqueza e pobreza não é tão impenetrável assim. O problema abordado pelo texto envolveu principalmente falta de fiscalização e inspeção das atividades envolvendo a soja e os navios cargueiros, por exemplo. Dessa forma, deve-se por em atividade uma fiscalização mais eficiente dentro dessas atividades e de outras intimamente relacionadas. Infelizmente, a questão da segurança alimentar peca nesse sentido, ao permitir que pessoas de diversas classes sociais tenham contato com alimentos contaminados. Os padrões de qualidade devem ser mantidos. A população tem poder para lutar por isso, mas vários obstáculos (questão burocrática, falta de mobilização, etc.) impedem a efetivação dessas melhorias.
ResponderExcluirA cólera é doença de países mergulhados na pobreza, pesquisas comprovam isso. Tal fato é explicado pelo simples fato dos indivíduos não possuírem acesso a saneamento BÁSICO, de forma sistêmica e suficiente, já que um único meio de contaminação é através de água ou comida suja com fezes humanas. Atualmente, o Haiti passa por um epidemia de cólera, que já matou 3000 pessoas, fato decorrente aos baixos de níveis de higiene e saneamento que a população está submetida. O post deixa claro a contaminação alimentar, já que este é o principal foco do blog, destacando que regiões ricas também podem está submetidas a casos de cólera, contudo cabe aqui destacar que tudo inicia na falta de saneamento, pois os mariscos e zooplâncton citados foram contaminados por resíduos deixados por navios, que no final das contas estavam contaminados com fezes humanas. Já foram notificados casos de contaminação por gelo de água não tratada comercializada por indústrias, destacando a falta de uma fiscalização eficiente. Portanto, para se diminuir o número de casos de cólera o governo deve investir em saneamento que atinja a totalidade da população, além de fiscalizações rigorosas, como no caso citado de navios.
ResponderExcluirA vulnerabilidade da população carente ao risco de doenças é uma das principais questões sociais a serem discutidas no Brasil. A cólera é de fácil disseminação em locais que apresentam precárias condições de infra-estrutura (cabe destacar a Vila Guarani, um dos bairros afetados onde, apresenta diversos problemas de infra-estrutura sanitária: o interior do bairro apresenta pequenas ruas, pavimentadas com blocos ou até mesmo sem pavimentação, que levam a área de invasão sobre o mangue). Essa doença encontrou em Paranaguá condições favoráveis para sua disseminação e, aliado a isso, esteve a inadimissível falta de fiscalização das atividades portuárias.
ResponderExcluirA epidemia de Paranaguá permite uma reflexão sobre vulnerabilidade de qualquer região do país às doenças da pobreza, independentemente da localização geográfica e do nível de desenvolvimento. Apesar de o Brasil revelar dados que colocam a sua economia entre as dez maiores do mundo, essa vulnerabilidade continuará enquanto persistirem as desigualdades sociais. Como consequência, continuamos a conviver com doenças medievais até hoje. Doenças há muito eliminadas de países onde o desenvolvimento econômico se fez de maneira mais equilibrada, sem a enorme marginalização observada no país. Os determinantes sociais que propiciam o aparecimento da cólera e a sua presença no país ainda hoje nos enchem de vergonha como brasileiros.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirA cólera é uma doença que pode ser evitada simplesmente por um saneamento básico adequado e por higiene por parte da população. Na era de desenvolvimento em que estamos, não deveriam ocorrer mais surtos de cólera, o que infelizmente não é verdade. Só no Brasil, a sétima pandemia produziu 2035 óbitos de 168.598 casos, o que se deveu, em grande parte, à falta de saneamento básico em algumas regiões que muitas vezes atingem uma média menor de 50%, além do acesso precário a água potável. É importante lembrar que a cólera ocorre sim em regiões desenvolvidas, mas o principal motivo, na grande maioria das vezes, é devido ao consumo de mariscos e peixes frescos (por motivos cultural, por exemplo) contaminadas com cepas de cólera provenientes de outras regiões onde a doença é endêmica. Com o programa de Monitorização das doenças diarreicas agudas (MDDA) criado pela Secretaria de Vigilância da Saúde (SVS), a situação da cólera está bem mais controlada nessa última década, exceto pelo caso do Haiti, que é o que causa mais polêmica hoje.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirA epidemia de Paranaguá serve para quebra alguns paradigmas. Um deles é o de que as áreas nobres estariam imunes a doenças da pobreza, características de locais sem saneamento básico como a cólera. Apesar do notável crescimento do Brasil, a extrema desigualdade social, representa ainda um grande determinante social da saúde. Sendo assim, há um grande obstáculo para que doenças como essas sejam erradicadas. Em suma, continuaremos a conviver com algumas patologias há muito eliminadas de países onde o desenvolvimento econômico se fez de maneira mais equilibrada e justa.
ResponderExcluir